/ Backstage - Cláudia Lobo
Ter, 8 Out às 16:00

Rocky Valente: "As pessoas acham que isto é como sair à noite e isto é como um desporto de alta competição"

São seis filhos e uma carreira como DJ internacional. A Rita, ou Rocky Valente, viveu dois anos em Inglaterra, cinco em Amesterdão e está agora de volta a Portugal.

Nem sempre teve jeito para misturas, no entanto, hoje em dia, pode orgulhar-se de já ter atuado ao lado de grandes nomes da música eletrónica como, Amelie Lens, Adam Beyer, Umek, Pig and Dan, Charlotte de Witte, Chris Liebing e Boris Brejcha. Uma verdadeira homenagem ao nome que apresenta aos fãs.

Prefere atuações intimistas e uma festa numa cozinha é sempre opção.

Falar com ela é tão agradável como estar de férias em plena ilha de S. Tomé e Príncipe à pesca de crustáceos.

Vê o vídeo e sente, um pouco, isso.

Diogo: Vamos, então, regressar ao primeiro dia da tua memória. Do que é que tu te lembras?

Rita: Olha, lembro-me de ser mínima, muito pequenina e de estar num barco muito grande... O meu pai foi para S. Tomé e tinha um projeto de pesca de crustáceos e eu não tinha babá, então eu ia todos os dias para o barco com o meu pai e reza a lenda que eu aprendi a andar no barco. E acho que isso é uma das minhas primeiras memórias, o cheiro do gasóleo, do barco... é por isso que eu não gosto tanto de comer crustáceos, deve-me ter afetado, o cheiro deve ter ficado para sempre na minha memória.

Diogo: Em algum momento, nessa altura da vida, pensavas em ser DJ?

"... inicialmente eu era terrível, tecnicamente eu era um desastre."

Rita: Não, mas eu sempre fui muito performer, muito artista, eu sempre adorei dançar, não tinha problema nenhum em ir para palco, cantar ou declamar poesia, desde muito pequena. Portanto, eu acho que o animal de palco, essa interação, sempre teve lá, agora... ser DJ, não estava nos meus planos, nem nada que se parecesse. Até porque eu, inicialmente, não tinha qualquer tipo de formação musical e inicialmente eu era terrível, tecnicamente eu era um desastre. Acho que o que me salvou foi mesmo a energia que eu tenho e aquilo que encanta as pessoas é essa conexão, que eu acho que tenho e que prende a atenção das pessoas.

Diogo: Agora, indo até ao primeiro dia da tua carreira, como é que foi esse dia?

Rita: Um desastre, foi muito... Eu fui tocar cheia de mise en scène… Eu quando inventei a Rocky, quis fazer a separação entre a Rita Egídio e a Rocky e era difícil convencer as pessoas a dizer... que queria que elas pusessem lá nos flyers que era a Rocky G e não a Rita, porque a Rita iria ser muito mais chamariz do que alguém novo ou um nome novo. E eu lembro-me que me vesti com um penteado enorme e todo cheio de mise en scène e produção e etc... e na altura em que fui tocar a segunda música, desliguei a musica que estava a tocar primeiro, portanto foi um bocado desastroso, mas não sei… acho que as pessoas gostaram, quer dizer... eu sobrevivi a esse dia.

Diogo: Começaste como Rocky G, porquê Rocky G e porque é que, entretanto, mudaste o nome para Rocky Valente?

"...resolvi usar Valente, quer dizer... é um dos melhores nomes que tu podes ter. Se puderes ser chamado de Valente... e é o nome da minha mãe."

Rita: Mudei, porque o meu mercado é internacional e "G" tem uma conotação muito "street", "culture", que tem a ver com drogas, hip-hop e não é a minha cena. Eu toco techno e música muito mais não comercial, portanto, não fazia muito sentido. E agora que estou a trabalhar com marcas grandes, internacionais e grandes produtores internacionais e pessoas da cena, eles vagamente disseram-me - "olha, se calhar não era má ideia começares a pensar em usar o teu nome". O Egídio era algo que eu não queria usar e resolvi usar Valente, quer dizer... é um dos melhores nomes que tu podes ter. Se puderes ser chamado de Valente... e é o nome da minha mãe.

Diogo: É preciso ser valente para ser uma DJ internacional?

"...é preciso ter coragem para sonhar e é preciso ter coragem para dar o primeiro passo e agir."

Rita: Eu acho que é preciso ser valente para ser mulher em geral, e homem também. É preciso ser valente para sonhar e depois é preciso ser valente para se ir atrás dos seus sonhos, em especial quando tu não queres decidir entre ter uma família grande e entre teres sucesso. Porque a sociedade, e em especial a nossa, ensina-te que uma teenager, uma mãe adolescente nunca terá sucesso na vida e eu fui mãe adolescente e sempre embiquei que isso não iria ser dessa forma e eu tinha o direito de fazer tudo aquilo que eu quisesse. Obviamente não foi sem dores, sem percalços pelo caminho, mas é preciso ter coragem, é preciso ter coragem para sonhar e é preciso ter coragem para dar o primeiro passo e agir. Sim, é preciso ser valente.

Diogo: Dois anos em Inglaterra, cinco em Amesterdão, a capital da música eletrónica. Porquê sair de Portugal? Achas que o reconhecimento nacional só surge depois de uma afirmação internacional?

Rita: Não, eu saí de Portugal porque achava que Portugal era demasiado pequeno para aquilo que eu queria. Eu queria muito mais. Portugal limitava-me e eu na altura também quis dar a experiência, a oportunidade aos meus filhos de poderem conhecer culturas diferentes, aprender inglês e serem capazes de perceber que o mundo não é só uma casquinha de noz, eu tive essa oportunidade e achei que para eles era muito bom. Acho que a experiência foi maravilhosa, eu tenho crianças que falam três línguas, com 4 anos, portanto acho que foi ótimo.

Diogo: Porque é que Portugal te limita? Achas que agora te veem, a ti e ao teu trabalho, com outros olhos, uma vez que estiveste "lá fora"?

Rita: Claro, claro que sim. Não foi essa a minha intenção, eu voltei porque o meu marido é apaixonado por Portugal e eu também, não me entendam mal, mas o Paul é apaixonado pelo sol, pela comida, por essas coisas todas e nós achamos, em conjunto, que dar oportunidade às crianças de viverem em Portugal e de saborearem a cultura Portuguesa era muito importante neste momento. Mas, eu hoje em dia vivo em Portugal, trabalho no mundo. Portugal mudou muito nos últimos 7 anos e eu estou muito orgulhosa de Portugal, mesmo, eu acho que nós devemos ser muito mais orgulhosos do que somos.

Diogo: O que mudou da Rita, cidadã Portuguesa, para a Rita, cidadã do mundo?

Rita: A capacidade de compreensão e de entender que o que é óbvio não é obrigatoriamente óbvio. Que muitas vezes, o que tu achas que é assim, não é exatamente assim. E aprendes a ser mais flexível e a apreciares outras culturas.

Diogo: E qual é o sabor de regressares ao teu país? 7 anos depois?

Rita: O sabor foi para aí uns 4 ou 5kg a mais, logo quando cheguei. Eu acho que a primeira coisa que eu fui comer, foi tão estúpido, foi pão de forma sem côdea, que era uma coisa que eu não comia há séculos, com Tulicreme. E soube-me tão bem, comi para aí o pacote todo. É o sabor de, hoje em dia, poder decidir a minha vida de outra forma e poder apreciar mais Portugal e stressar menos com as coisas que me stressavam antes. Sou mais velha, tenho mais experiência, sei melhor o que quero, quando quero, como quero e isso ajuda imenso.

Diogo: Já que falaste na comida Portuguesa, achas que há algum sítio na Europa ou no mundo onde se come tão bem como em Portugal?

Rita: Não, não, não e olha... eu sou vegetariana e posso-te dizer que se me deres só os acompanhamentos, eu fico feliz.

Não, acho que não, talvez no Brasil… eu também gosto de arroz com feijão e farofa...

Diogo: Whatever, já gravado, tem uma frase que diz "Let's go back home, whatever that means, just let's go". Gravado em Lisboa e produzido em Amesterdão. Porquê este nome, porque esta frase, o que representa na tua vida?

Rita: Eu no momento em que estava a produzir essa track, eu não estava muito convencida em voltar. E isto vem de eu e o Paul a falarmos em que ele me diz qualquer coisa como "It's time for you to go back home and whatever that means", porque para mim casa é onde eu estou, porque eu também vivi muitos anos em S. Tomé, eu não tenho uma casa específica, so whatever that means, whatever. Foi uma brincadeira, um jogo de palavras e ficou. Foi uma track que foi feita muito fora da box mas que me inspirou muito para o meu próximo álbum que vai sair agora em 23 de novembro, que é o "Rebirth", que vem também com a mudança do nome e que é uma coisa muito mais old school, house, em que a primeira track é a "Unapologetic"e as lyrics dizem "I want you now" e é muito mais sobre certezas do que incertezas.

Diogo: Em resposta à sugestão do teu marido, o Paul, pretendes gravar um vídeo com os highlights da tua carreira, qual é o objetivo deste vídeo? Acreditas que é uma forma de o teu público e não só compreender melhor aquilo que é a vida de uma DJ de techno?

"...todas as outras pessoas que estão em casa e têm o direito de sonhar e vêm em mim que tenho 6 filhos e que consigo, elas também conseguem."

Rita: Eu acho que há muita gente que neste momento, porque vai haver aí uma grande explosão do meu nome em breve, não vai perceber quem eu sou - quem é esta? de onde é que ela veio?

Há 10 anos, 11 anos de trabalho e acho que é importante, até para mim, porque às vezes nós focamo-nos tanto naquilo que queremos a seguir e tão pouco naquilo que já conseguimos que às vezes é importante vê-lo, tudo junto. E, há uns anos atrás, eu tive um vídeo que se tornou viral sobre mim, tendo uma série de filhos e sendo DJ internacional e neste momento nós estamos a filmar um documentário que vai acompanhar os próximos 2 anos da minha vida e é muito importante pôr essas peças... e eu comecei por pôr na parede, comecei por pôr fotografias do passado e ter uma capacidade de visualizar e interiorizar tudo aquilo que eu já fiz. E acho que é uma forma de comunicar porque basicamente quando eu subo para palco, não sou só eu que estou lá, todas as outras pessoas que estão em casa e têm o direito de sonhar e veem em mim que tenho 6 filhos e que consigo, elas também conseguem. E acho que é isso, essa é a minha missão.

Diogo: Poderás já ter ouvido esta questão 1000 vezes, mas como é ser uma DJ de techno e ter 6 filhos?

Rita: Olha, é não pôr a opção de não viver, por exemplo, quando eu chego ao domingo à noite a casa, cansada e às vezes de direta e acordo à segunda-feira, às 7 da manhã para ir levar as crianças à escola, eu não acordo e digo "oh meu deus, eu 'tou tão cansada" eu digo, "uau, let's do this", é só isso, eu não quero ter que escolher entre eles, então não vou ter que escolher. É difícil? É, mas se fosse fácil também não tinha graça nenhuma.

Diogo: Já atuaste ao lado de grandes nomes da música eletrónica, em festivais internacionais de renome, como é que te sentiste das primeiras vezes que o fizeste e como é que se gerem todas essas emoções?

Rita: Sabes que no techno há menos o super-estrelato e somos todos muito mais friendlies. E eu sinto-me sempre tão cheia de amor e tão grata e feliz de poder partilhar com pessoas que têm muito mais história do que eu, às vezes, que é sempre uma coisa boa. Eu sou muito grata por isso e sei que vem aí muito mais e por isso estou sempre a espera também do que vem a seguir.

Diogo: Quais os principais desafios desta carreira e qual o papel da família e dos amigos?

"...as pessoas acham que isto é como sair à noite e isto é como um desporto de alta competição."

Rita: Os principais desafios, é... as pessoas acham que isto é como sair à noite e isto é como um desporto de alta competição. A única forma que tu tens de fazê-lo é não beberes, não te drogares, tentares dormir, meditar, treinares, estares em forma fisicamente. É super importante que as pessoas vejam isto como um desporto de alta competição. Depois, a família e os amigos são aqueles que te lembram quem tu és. E é assim que eu quero continuar a ser, porque senão tens casos de pessoas que se perdem, quando não têm família, amigos, crianças, marido com quem voltar para casa. E uma casa que tem silêncio, que às vezes é difícil de gerir, quando tu voltas o silêncio é muito pesado, mas tens que saber lidar com isso. Eu acho que a meditação me ajuda imenso, acho que a meditação salvou a minha vida.

Diogo: São 315 000 seguidores no facebook e 52 000 no instagram, 3000 dos quais registados após o lançamento de "Whatever". O que representam as redes sociais para um artista nos dias de hoje, nesta revolução digital?

"Tento falar com eles e conheço a maior parte dos meus hardcore fãs, conheço-os a todos e tenho todo o amor e carinho deles, porque eles é que fazem o meu sucesso, mais ninguém."

Rita: Tudo, há uns anos atrás quando eu era famosa aqui, nós não tínhamos voz, não tínhamos redes sociais, quando alguém escrevia alguma coisa sobre nós, nós não podíamos dizer nada. Aqui não há ninguém no meio, aqui sou eu diretamente para o público e o meu público diretamente para mim, ninguém os obriga a estar lá e eu não tenho que pagar a ninguém para estar a frente deles. É a liberdade, portanto, eles só estão lá se gostarem de ti e só te dão atenção se quiserem. E tu, podes dar-lhes o melhor de ti sem teres que pedir... antigamente podias ser muito bom artista, mas tinhas que ter uma cunha aqui para gravares um disco, aqui não. Aqui tens um microfone ou o microfone do computador, ou do telefone, gravas qualquer coisa e se fores bom e se eles gostarem, tens essa sorte. Eles representam tudo e devem ser cuidados e amados com todo o carinho. Eu, pessoalmente, tento responder a todas as pessoas que fazem comentários, especialmente no instagram. Tento falar com eles e conheço a maior parte dos meus hardcore fãs, conheço-os a todos e tenho todo o amor e carinho deles, porque eles é que fazem o meu sucesso, mais ninguém.

Diogo: Podes dar um sneak peek daquilo que por aí vem? O que podem os teus fãs em geral, e Lisboa em particular, esperar da Rocky Valente?

Rita: Podem esperar, provavelmente, umas festas organizadas por nós, não muito grandes, uma coisa intimista como aquela que eu fiz na cozinha há uns meses atrás, fiz um live streaming na cozinha, que é assim que eu gosto de fazer as coisas e que as pessoas se sintam, "uau, o que é isto, de onde é que veio", eu não acredito em massas neste momento, acredito em coisas intimistas e bem feitas. E depois podem ver um lado meu, uma qualidade musical que eu acho que nunca tive. E vou editar em vinil, vou ter um picture disc, são aqueles discos com cor, super cool que eu acho que está o máximo. O art work acabou de vir e tens um picture disc vinil na tua mão em que um é verde alface, o outro é cor de rosa e têm 4 músicas e tens a minha história. O nome é "Rebirth", acho que faz sentido e é um lado muito mais adulto e muito mais eu.

Diogo: Para terminar, vamos agora até ao último dia da tua carreira, vai haver um último dia? Como será?

Rita: Último soa-me sempre a despedidas, e eu tenho uma azia com despedidas, eu não gosto de me despedir de ninguém. Até porque eu acho sempre que o fim de um destino é sempre o início de outro. Eu acho que nada se perde, nada se cria, tudo se transforma e provavelmente a minha carreira irá se transformar em algo diferente, associado, antes de acabar. Eu não imagino a minha carreira a acabar, imagino a minha carreira em mutação. Mas se acabar, vai acabar cheia de lágrimas e cheia de sorrisos e cheia de gargalhadas e com muitas palmas, sem dúvida.

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