Dino D'Santiago

Dino D'Santiago: "Podes estar a cantar temas meus sem saber o que estás a dizer, mas depois vais querer saber"

Dino D'Santiago lançou o seu álbum Kriola em plena pandemia e na próxima quinta-feira vai subir ao palco da Super Bock Arena, no Porto.

Durante uma viagem de carro entre São Bento e a estação de Campanhã, no Porto, conversámos com o artista oriundo de Quarteira sobre o seu álbum e sobre o seu processo criativo. Antes de chegarmos ao destino ainda tivemos tempo de levantar um pouco da cortina do seu próximo concerto.

Sábado, 21 de Novembro de 2020, às 18:51

Começando pelo teu mais recente álbum, Kriola, ele foi terminado mesmo a tempo da Covid-19 tomar conta do mundo. Entretanto, o lançamento foi mesmo em plena pandemia. Como planeaste este lançamento?

Eu até posso dizer que ele nem teve tempo para ser planeado. O objetivo era editá-lo em Cabo Verde de surpresa. Como não tive a oportunidade de ir lá com Mundo Nôbu, era a oportunidade de editar em Cabo Verde. Dia 27 de abril era a data e esta pandemia veio e trocou-nos as voltas todas. Já não queriam editar e eu disse "não, eu preciso de sentir que as pessoas vão poder ouvir e ter a sensação que eu tenho quando ouço este disco. Este disco faz-me bem, então se me faz bem, acho que muita gente vai sentir o mesmo e vai identificar-se". Fiz pressão à editora e disse-lhes "se for preciso outro disco eu dou-vos outro disco no final do ano, mas deixem-me editar este" e foi excelente. A editora decidiu avançar de forma digital somente porque não podíamos fazer promoção. As famílias ouviam o disco, enviavam-me vídeos das reações, a jantar, a fazer as lides domésticas,... E era mesmo esta a sensação que eu queria ter: ouvires os discos à antiga, em que o pessoal sentava-se no sofá a ouvir, em família, o álbum que o pai ou a mãe compravam, e foi isso. Senti que o Kriola sem preparação foi a melhor surpresa que poderia ter acontecido quer comigo quer com as pessoas que o ouviram.

O teu álbum está repleto de homenagens. Qual é o tema que mais te toca?

Por acaso a canção que mais me toca no disco é talvez a mais undercover do álbum. A Arriscar foi um processo interno de mim para mim, em que decidi arriscar a ser aquilo que nasci para ser. Sem receio e sem rótulos, então essa canção é um mantra para mim.

Tu tens muitas inspirações, quer pelos teus ascendentes, quer pela tua passagem por várias cidades, o convívio com várias pessoas,... És inspirado desde o fado ao semba. Como é que, com tanta coisa que passa aí , consegues criar?

Acredita que depois eu misturo tudo, mas quando ela nasce, ela vem do mesmo sítio. Por isso é que este processo do Kriola foi mais rápido, porque eu fui mesmo viver para o estúdio em Londres. Então todos os dias saía . Às vezes ia dormir, e de repente, vinha logo uma melodia, gravava no dictafone, mas depois tinha logo que ir para o estúdio começar a compor. Eu sinto mesmo que sou um canal, em que não há uma preparação para quando a mensagem chega, sai-me naturalmente. Depois, a canção em si é que vai pedir o ritmo que quer. Já não consigo impor um ritmo, só sugiro "se calhar um Batuque aqui ficava fixe", mas depois a canção começa a acontecer e eu penso "Não, isto é um Funaná". A canção é que escolhe o ritmo, é incrível, é estranho, mas é real.

Para além da mistura musical, também gostas de cantar tanto em Português como em Crioulo. Isso também sai naturalmente?

Sai, a melodia sai-me logo em crioulo ou sai-me em português. Eu não escolho, ela acontece. Quando acontece em crioulo, vou em crioulo até ao fim, quando acontece em português, vou até ao fim, mas já peço ao Kalaf ou assim, porque o português é-me sempre mais mental e o crioulo sempre mais instintivo. Quando é em crioulo, vou até ao fim e no mesmo dia sai a canção toda. Quando é em português, fica ali metade das coisas ditas, mas a melodia toda construída.

É curioso porque, eu não estive em Cabo Verde, mas na Guiné-Bissau a base da comunicação é o crioulo, e depois forçam para comunicar em português. No entanto, tu nasceste e cresceste em Portugal, é engraçado isso ter-te acontecido também.

Podes crer. Eu sinto que descobri ali a minha voz, a minha alma. O crioulo deu-me isso. Eu tenho que ser muito grato e é importante que nós percebamos que as línguas são um código e esse código do crioulo lusófono é um código que nasce da língua portuguesa misturada com uma língua nativa africana, mas a base lexical tem 70% de português. É só também nós querermos perceber o que ali está, querer questionar, querer perceber a origem, o porquê das palavras serem transformadas assim dessa forma e a música pode trazer esse elo de ligação. Podes estar a cantar temas meus sem saber o que estás a dizer, mas depois vais querer saber .

Isso é outra curiosidade que eu tenho. As pessoas nos teus concertos, cantam as tuas músicas, e principalmente as músicas que tens em crioulo têm muitas mensagens e muito conteúdo. Contudo, a maioria dos portugueses não sabe Crioulo. Qual é o feedback que te passam? Há muita gente a questionar-te?

Muita! há mesmo muita gente a querer saber o que estou a querer dizer naquela letra e é lindo quando percebem porque as respostas são logo "Agora ainda gosto mais da música". Isso quer dizer que quando entendem o código, faz com que as pessoas entendam mais, não sei, ouçam mais, e entrem naquele universo. Às vezes tem piada porque depois tu constróis o teu mundo, não sabes o que está ali, entendes a energia que ali está e pensas "Ah se calhar ele está a falar sobre isto", e isso tem piada, mas é sempre bom revelar as palavras.

Na próxima quinta-feira vais ter um concerto na Super Bock Arena, numa cidade que te diz muito, o Porto. Os teus concertos eram muito pautados pela tua ligação mesmo física com o público. Ias para o meio do público, as pessoas cantavam ao teu lado,... tu já deste um concerto em época de pandemia, em Lisboa, e neste concerto as circunstâncias vão ser as mesmas. Qual é a sensação?

Tu aí sentes o quão diferente está o mundo. É um contraste tão radical. Aquele momento em que eu ia para o público, era o meu momento favorito do concerto. Eu quase que esperava o concerto todo por aquele momento. De repente estão ali, estou a ver o pessoal já só com o braço na cadeira, e o corpo já fora a dançarem mesmo assim e eu não poder ir lá para o meio, dói. Eu dou o meu melhor no palco para que a pessoa se sinta de pé, que o espírito dance e é isso que tenho procurado fazer e espero que no Porto consigam sentir o que quero dar.

E o que as pessoas podem esperar de especial que possas já desvendar?

Vou-te dizer uma que ainda não disse a ninguém, nem aos programas de televisão que já fui, nem às entrevistas. Vou trazer a Kady, que é a pessoa que eu levei ao Festival da Canção para interpretar a canção "Diz só". Pela primeira vez vamos cantar ao vivo os dois porque é uma letra que diz muito. Ela vai ser a minha convidada especial para representar esse lado Kriola, personificar a Kriola nesse sentido e é realmente um dos grandes objetivos deste disco, dar voz à mulher, mas é servir e não fazer um favor. É dizer-lhe "Vem e este palco é teu" e vai ser bonito acontecer no Porto.

Um objetivo para 2021.

Olha, pelo menos num concerto poder ir ao meio do público e já não virmos mascarados. Se isso acontecesse, já era grande milagre.

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Catarina Freitas
Jornalista
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