Blasted: “Sempre vimos os Blasted como uma maratona, um projeto de vida.”

A edição 2020 do Festival da Canção vai contar com o tema Rebellion, dos Blasted. A banda portuguesa promete ser uma séria candidata a representar Portugal na Eurovisão 2020, que se realiza em Roterdão, e a Backstage teve oportunidade de estar à conversa com o grupo.

Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020, às 21:34

Para além da participação no festival, conversámos sobre os recém celebrados 25 anos de carreira, o mais recente álbum gravado ao vivo no NOS Alive 2018 e sobre os projetos futuros dos Blasted. Confere em baixo a entrevista na íntegra.

Backstage: Celebraram recentemente 25 anos de carreira. Quando deram os primeiros passos, esperavam que a banda tivesse esta longevidade?

Valdjiu: Na realidade penso que sim. Sempre vimos os Blasted como uma maratona, um projeto de vida.

Backstage: O que é que se sente ao celebrar 25 anos de carreira?

Valdjiu: Nós estamos, curiosamente, agora em estúdio já a preparar novos temas. Continuamos bastante curiosos para perceber quem somos e o que vem aí. Nos Blasted não há fórmulas, nós continuamos a compor muito por fruto do encontro entre músicos, produtores e pessoas criativas. Há quase como que uma faísca que revela o que quer ser manifestado dentro do nosso universo.

Lousada: E já fomos ver as salas de ensaio da Casa do Artista… que é para onde vão os artistas quando se reformam. (risos)

Backstage: Durante muitos anos as máscaras eram uma das vossas imagens de marca, mas ultimamente colocaram as máscaras de lado. Havia necessidade de uma certa mudança?

Valdjiu: Houve aqui um ritual de passagem de uma vida grande que tivemos ao longo de muitos anos. Deixámos, inclusivé, cair recentemente uma parte do nome. O Mechanism foi encostado. Precisávamos de nos conectar com outra linguagem, precisávamos de renovar um bocado aquilo que foi até então o ADN da banda e deixamos de nos querer tapar tanto. Sofremos imenso com hérnias nas costas e calor a mais. Quisemos simplificar e quisemos conectar-nos mais com o público e com a música.

Backstage: Coisa que com as máscaras se tornava complicado…

Valdjiu: Às vezes tornava-se difícil. E a máscara acaba por esconder alguma coisa também. Nós neste momento tiramos a máscara, mostramo-nos, mas não deixamos de ter cuidado cénico. Fomos buscar um estilista sueco, da Demobaza, que nos vestiu e fez-nos sentido seguir nessa direção.

Backstage: Em 2018 lançaram um álbum ao vivo, gravado no NOS Alive. Porquê a decisão de um álbum ao vivo e não em estúdio?

Riic: Foi uma visão aqui do Valdjiu.

Valdjiu: Curiosamente o álbum de estúdio ainda vai sair desse mesmo disco. No entanto, nós temos uma identidade live, uma força live. Foi esse mindset que nos ajudou a compor o disco que fizemos. Decidimos cortar com o nosso passado, cortar com o legado que vinha já de 20 e tal anos de música do nosso reportório e decidimos fazer uma coisa nova. Mas com que mindset? Porque quando vais para o estúdio e te fechas, de repente podes fazer coisas que estão desconectadas da tua realidade. E a nossa realidade é o palco. Então fomos com esse espírito: vamos fazer um disco que representa a nossa força live. Então fizemos um disco carregado de riffs, carregado de power, onde o Lousada começou a tomar conta da parte mais eletrónica, que é a identidade dele, e o Riic assumiu o comando do microfone.

Backstage: Sendo um álbum gravado ao vivo, haveria talvez uma exigência e uma pressão superior a um concerto normal. Dentro das expectativas que tinham inicialmente, como é que correu o concerto?

Lousada: Muito bem. Até melhor do que nós esperávamos. Foi tarde o concerto, no primeiro dia do festival, durante a semana e a entrarmos em palco tarde. A banda que tocou antes de nós no mesmo palco tinha 100 pessoas a assistir. Estava tudo a ir embora e de repente quando entrámos para cima do palco estava cheio.

Riic: Estávamos com pressão em cima porque foi tudo feito em três meses, entre músicas novas e um conceito live novo, tínhamos lá uma equipa que ia filmar para lançar ao vivo também no YouTube. Era a minha primeira performance ao vivo com a banda e a primeira performance em muito tempo. O pessoal das filmagens só teve 20 minutos para preparar as câmaras. Foi tudo uma cena… E quando vimos o resultado final, correu bué bem. 

Valdjiu: E foi surpreendente nunca termos tocado com ele (Riic) ao vivo e ele ter tido uma introdução tão dominante. Este homem é um monstro de palco.

Riic: E nós nunca tínhamos tocado juntos, só ensaiámos, mas em palco, em frente a pessoas, a estreia foi no Alive.

Lousada: Este concerto podia ter ficado como uma triste lembrança, mas não ficou.

Backstage: Agora regressam com um tema para o Festival da Canção. Como é que surgiu esta oportunidade?

Valdjiu: Foi um convite feito pela RTP. Aceitámos porque sentimos que há aqui uma oportunidade para os Blasted se mostrarem a um novo público que ainda não nos conhece. E também acho que há aqui uma oportunidade única de nós, caso ganhemos, voltarmos a ter uma presença internacional. Eu acho que há muita gente dentro dos Blasted que sonha com isso, mas também há muito público que há muitos anos espera que os Blasted sejam reconhecidos internacionalmente. E há uma questão importante que é: esse público tem agora de ser realmente ativo e de votar nos Blasted.

Backstage: Então a vossa expectativa passa não só por ganhar o Festival da Canção e atuar na Eurovisão mas até, quem sabe, ganhar a Eurovisão…

Riic: A ideia é essa, nós queremos é ganhar. E depois vamos numa World Tour tocar no Japão, Nova Iorque, etc. (risos)

Valdjiu: Eu acho que quando concorres há sempre essa vontade e esse sonho e neste momento nós temos de projetar essa realidade. Mas aqui o que conta também é a mensagem que nós transportamos, que é uma mensagem internacional. O Rebellion é um tributo a estes movimentos de transição, movimentos que estão a dar voz à consciência ecológica e estão a exigir justiça climática e direitos da terra, que é uma coisa que se começa a falar muito agora. Direitos humanos está certo, mas e direitos do rio ou da floresta? Portanto, este é um hino a esses movimentos dos quais nós também fazemos parte e que sonham com soluções - porque o problema todos nós já conhecemos.

Lousada: Abro aqui um parêntesis para dizer que, parecendo só um discurso bonito e de miss até, na realidade o Valdjiu vive desconectado da rede de água e da rede elétrica. Vive off-grid e produz o que come, não é só um discurso bonito. Há aqui uma pessoa que mete isto em prática praticamente desde que o conheço. Portanto, não é só um conjunto de balelas bonitas porque vem na ordem do dia. É alguém que agarrou nele e na família e “vamos viver nisto em que acreditamos”. Ou seja, a música Rebellion mais do que ter uma mensagem que está na ordem do dia, tem essa carga de ter alguém que mete tudo isso em prática.

Backstage: Cá em Portugal existe uma tendência para o tema escolhido pelos portugueses ser cantado em português. Vocês trazem uma música em inglês. Chegaram a pensar em levar uma música em português ou desde o início quiseram ser fiéis à vossa música e levar uma música em inglês?

Riic: Sinceramente ia soar mal. Eu sou português mas eu falo pouco português e quando canto isso nota-se no sotaque. Mas eu acho que para manter o histórico da banda, que sempre cantou em inglês, faz mais sentido e fomos um pouco por aí. Ou seja, continuar o ADN da banda que é cantar em inglês.

Lousada: Portugal vai perder neste aspecto se não nos mandarem para Roterdão. Vai-se perder a oportunidade única de ter um português a cantar em inglês como o Riic. Porque o Riic é um português que fala inglês como primeira língua e se não formos nós vamos mandar um gajo com sotaque. E, por exemplo, um alentejano a cantar em inglês não vai ser a mesma cena. (risos)

Valdjiu: Há aqui também uma outra linguagem, que é a linguagem musical. E nesse aspecto quisemos introduzir um elemento que é a guitarra portuguesa, que tem um legado cultural. E que tem, curiosamente, muitos fãs e muitos reacts - o Youtube está carregado de reações internacionais - em que toda a gente fala na guitarra portuguesa. Eu acho que o inglês para nós pode ser um motivo antagonista aqui em Portugal mas, curiosamente, internacionalmente pode ser também uma oportunidade.

Backstage: E tem o toque da cultura portuguesa através da guitarra portuguesa…

Valdjiu: Sim, exatamente. Agora, não nos cabe a nós a decisão. Simplesmente fomos autênticos quando fizemos este tema. Acho que se fizéssemos um tema português não estaríamos a ser autênticos com o legado que já trazemos há muito tempo.

Backstage: Para terminar, quais são os vossos planos para este ano?

Valdjiu: Estamos neste momento a fazer novos temas com os mesmos produtores, o Stego e o Diogo Guerra, nos estúdios da RedMojo.

Riic: O que os fãs podem esperar são músicas novas na mesma linha da Rebellion e com o mesmo ADN de Blasted. Os novos sons que estão a sair estão a soar moderno, mas sempre a respeitar o passado da banda.

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Paulo Lopes
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