Guns N’ Roses transformaram Algés em “Paradise City”

A digressão intitula-se “Not In This Lifetime” e eis que os Guns N’ Roses deram uma oportunidade única na vida à maior parte dos 57 mil espetadores que esgotaram o Passeio Marítimo de Algés, vindos de todo o Portugal, mas também de outros países, só por um dia.

Uma oportunidade para “Live and Let Die” num mundo que está sempre a mudar e fez a história de 32 anos da banda, uma complicada.

Mas aconteceu, Slash e Axl Rose voltaram a juntar-se e regressaram a Portugal 25 anos depois do último concerto juntos por cá, em Alvalade.

O espetáculo foi assegurado a partir das 19 horas por Tyler Bryant & The Shakedown (a banda que há um ano acompanhou Axl Rose e AC/DC no mesmo local) e Mark Lanegan.

Passam 15 minutos do horário anunciado e às 21 horas ainda há muito movimento e muita gente a entrar no recinto.

Quando Guns N’ Roses começam a tocar, ainda há luz natural para que todos se juntem e para que todos os olhos se virem para o palco, ou, mais precisamente, para os ecrãs gigantes. Vão ser esses ecrãs que vão salvar o público que “veio ver” Axl Rose, Slash e Duff McKagan reunidos de novo, como nos bons velhos tempos.

O sol põe-se lentamente e não é apressado pelo ritmo de Guns, de modo que dá prazer ver a noite chegar enquanto Axl Rose canta “It’s so easy when everybody is trying to please me”.

Os Guns N’ Roses fazem parecer que “It’s so easy”. As canções são arrebatadoras em tudo que as compõem, a banda faz um trabalho minucioso de juntar letra, voz, Axl Rose a bateria, guitarra, Slash, teclas, piano e muitos outros elementos, sem esquecer o baixista Duff McKagan, o baterista Frank Ferrer, o guitarrista Richard Fortus e os teclistas Dizzy Reed e Melissa Reese.

A “Chinese Democracy” vem pôr tudo a vibrar e dá o mote para os riffs que só Slash consegue manobrar para dominar a cena. A velocidade dos seus dedos aumenta cada vez mais e a melodia sobe de registo, sobe a tensão, a coordenação não falha, os ouvintes já entram em êxtase e mal podem esperar pelo momento em que se possam libertar, gritar e aplaudir… Mas Slash não permite, começa a acalmar-se e alonga as notas para que o público volte a respirar. Ainda vamos no início de quase três horas de espetáculo.

O que dizer sobre músicas como “Better” ou “Estranged”, que deixam de ser tão audíveis entre a “Jungle” que é a multidão, mas mesmo assim continuam arrebatadoras? Pode-se simplesmente cantar “Please God, you must believe me” que “This I Love”. Mas falta dizer “Don’t Cry”, fica a faltar.

Para a “Rocket Queen”, Axl Rose aparece com um chapéu e óculos de sol clássicos para relembrar o charme que lançava no auge da carreira. Richard Fortus tem agora o papel principal e avança para brilhar de forma incontestável com a sua guitarra branca, enquanto toma as rédeas do espetáculo. A estafeta passa novamente ao Slash, que toca como se jogasse numa consola, joga com os destinos de milhares de pessoas. E como estrelas do rock, nenhum dos dois guitarristas quer ceder, aproximam-se e colocam-se frente a frente, enfrentam-se e tocam, parecendo que se esquecem do público. Até parecia um duelo se não se estivessem a rir.

As notas agudas que Axl Rose canta em “You could be mine”, a guitarra continua. Eis que Slash aparece com uma “double neck”, a guitarra de dois braços, para disparar notas em “Civil War”.

Apagam-se as luzes por uns momentos e vem um solo de piano, tão leve e despreocupado, iluminado como se tivéssemos passado para um concerto de jazz. Guns N’ Roses interpretam “Black Hole Sun”, em tributo a Chris Cornell, falecido há duas semanas e continuam o espetáculo como se quisessem acordar o cantor de um “Coma”.

Há que continuar, mas depois de toda a banda ser apresentada, ninguém sabe o que vai acontecer. Slash, apresentado em último lugar, tem a maior ovação e interpreta mais um solo que se revela ser o tema de “Godfather”. Num instante, tudo se põe a gritar e acontece um dos momentos mais esperados da noite: “Sweet Child Of Mine”, com o Axl vestido de branco e um chapéu dourado. É um mar de vozes, quase um maremoto, que não se consegue conter, à beira do rio Tejo. É melhor não dizer mais nada, é melhor sentir, ou voltar a ver as gravações que quase todos fizeram nos telemóveis. E o mesmo acontece com “November Rain”.

“Everybody needs some time on their own” e foi o que aconteceu com estas lendas do rock quando se separaram. Slash veio mesmo a tempo de subir a um pedestal e partilhar o palco com o Axl a tocar piano.

Guns N’ Roses encontraram a “Heaven’s door” em Portugal, mas trouxeram a sua própria “Paradise City” para enlouquecer o público e acabar o concerto em grande. E acaba agora, assim, sem mais nem menos.

Depois de pôr toda a gente a saltar com o ritmo frenético, Guns N’ Roses desaparecem e deixam o Passeio Marítimo de Algés a interrogar-se se é mesmo verdade que “nothing lasts forever” e agora é tempo de apanhar o “Nightrain”. Mesmo depois de duas horas e 50 minutos, ninguém quer que isto acabe. Não assim.